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Eduardo Luzia: uma vida dedicada às motocicletas

Texto: Benê (Benedito Salvador Carlos)

 

Para mim o berço do motociclismo de competição em Araraquara foi uma modesta oficina localizada à Avenida Presidente Vargas, esquina com a rua Tenente Joaquim Nunes Cabral (Quinze), no Bairro do Carmo, num prédio assobradado e composto de portas comerciais isoladas onde funciona ao lado, até hoje, o Ferro Velho da família de Francisco Merlos. Lá, ADOLPHO TEDESCHI, o ‘’Nego’’ do Moto Dumbo, acelerou com seu talento, seu conhecimento de mecânica e o seu empreendedorismo o  sonho da velocidade  de uma geração inteira de jovens.  Lá ouvi o primeiro tilintar verdadeiro de um motor de corrida, prazer indescritível para minha alma.

Algumas pessoas passam a vida toda fazendo a mesma coisa… o que as diferenciam é que todo dia, para elas, é um novo dia e nova será sua dedicação, novos serão seus conhecimentos, suas alegrias e suas emoções.

A maioria se contenta com o que possui, a mesmice de sempre, com o trabalho entristecido que amarga os anos em busca de aposentadoria, com capital que acumula nunca condizente com o que julga merecer ou até acomodada com aquele tampouco de tudo.

Outras pessoas não. Da mesma maneira nunca conformadas e nunca satisfeitas com um resultado estatístico dos seus anseios se tornam diferenciadas e, por conseqüência, as melhores. São determinadas, incansáveis, corajosas, aquelas que quando o dia termina interiorizam a sensação de que não fizeram tudo que podiam e, certamente, acordam e começam tudo de novo, como se o novo sol fosse único e, pela última vez, nele se agarram em nome das suas emoções.

Foto tirada quando da fundação do Moto Clube de Araraquara (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)
Foto tirada quando da fundação do Moto Clube de Araraquara (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)

A DIFERENÇA

 Conheci várias pessoas assim, umas famosas outras não. Isso não importa. O que importa é que existe uma força que as move em direção aos seus sonhos e isso não se apaga. Isso o tempo, com toda sua sabedoria, não transforma, apenas converge para seus objetivos.

Denísio Casarini, Walter Tucano Barchi, Edmar Ferreira, Eduardo Luzia, Adu Celso e Antonio Sequeira perfilados. (Foto: Acervo Edmar Ferreira / Motostory)
Denísio Casarini, Walter Tucano Barchi, Edmar Ferreira, Eduardo Luzia, Adu Celso e Antonio Sequeira perfilados. (Foto: Acervo Edmar Ferreira / Motostory)

Foi ali também, numa daquelas portas, que eu vi pela primeira vez EDUARDO LUZIA, um expoente de tudo que mais me encantava na vida: Corrida de Motocicletas. Luzia foi pioneiro de uma era, foi um daqueles que com determinação buscou concretizar seu amor pelo esporte a motor  e em sua carenagem alavancou o nome da cidade de Araraquara, SP,  para o cenário nacional. Mais que isso, passou a vida inteira fazendo a mesma coisa, a que mais gosta, sem titubear, sem pestanejar e nem renunciar seu amor ao motociclismo, vivendo dele e prá ele, e, foi fazendo isso cada dia melhor.

Eduardo Luzia clicado por Edson Lobo. esta foto fez parte do Calendário Motostory 2016 (Foto: Edson Lobo / Motostory)
Eduardo Luzia pilotando sua Ducati Mach1 de 250 cc, clicado por Edson Lobo. Esta foto fêz parte do Calendário Motostory 2016 (Foto: Edson Lobo / Motostory)

CONHECIMENTO

Acho que entendo o Luzia, e quem já participou de uma corrida de motocicleta sabe perfeitamente do que estou falando. O que é sentir no rosto o vento mais rápido que o ar que se respira, de como é prazerosa a sensação de liberdade que só a velocidade pode dar, como é emocionante o desafio da próxima curva, e também como é maravilhosa a sensação de vencer, segundo a segundo, o novo perigo que se aproxima.

Corrida de rua em Araraquara, na Alameda Paulista (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)
Corrida de rua em Araraquara, na Alameda Paulista (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)

Você e a motocicleta, duas partes fundidas no mesmo corpo e controladas por um único coração. O fim da reta chegando e, em fração de segundos, a velocidade vencendo as placas de 200, 100 e 50 metros respectivamente e você, sem respirar, sem pensar em absolutamente mais nada, num momento único que não te permite lembrar do segundo anterior e nem do próximo, do que será seu amanhã, e,  olhar fixo no ponto de frenagem, primeiro levando a mão direita e flexionando levemente o freio dianteiro para, em seguida, num movimento único e orquestrado, realizar simultaneamente todos os demais comandos, movimentando o pé direito em direção ao freio traseiro, o esquerdo no cambio reduzindo firmemente e com suavidade,  um olho no conta giro  controlando o motor, outro na curva que vai crescendo na sua frente. Deitado, seu dorso inicia o pêndulo e seu pescoço desenhando o novo centro de gravidade necessário para que o conjunto não caia… Tudo isso entre dez ou quinze segundos e, novamente, tome acelerador no limite e nova curva e, novamente, outra sucessão de orgasmos de emoção.

A PRIMEIRA

 A primeira vez que conversei com o Luzia foi em Interlagos, autódromo na cidade de São Paulo, muitos anos depois daquela manhã que eu, todo sem jeito, disfarçando, estacionei minha bicicleta vermelha de marca Caloi, modelo Fiorentina de 1964 na porta da sorveteria Spumell, ao lado do  prédio da oficina e, maravilhado, acompanhei a regulagem de sua DUCATI. Naquele instante, eu, o mais jovem piloto do Moto Clube de Araraquara, e ele, já um campeão, sempre com Araraquara no peito, já representando uma tradicional equipe de São Paulo.

Sem qualquer maior apresentação interagimos, e, na mesma hora caminhamos por um período da nossa vida nos mesmos anseios.

Naquela temporada ele corria na categoria força livre com uma HONDA 750, equipada com kits Yushimura de 840 cc. Andava que dava medo. Tinha uma tocada possessiva, muito técnica, deliciosa, fazia de seu motor uma orquestra afinada, virava derrapando, usava e abusava do seu talento. Assim, escreveu uma história de vencedor no seleto time dos melhores pilotos deste País, brilhando no Centauro Motor Clube, nos Campeonatos Paulista e Brasileiro, ganhando corridas, campeonatos e copas, e, sempre com exagerada modéstia, como se praticasse um ato absolutamente comum, simples e normal ao alcance de todos os  mortais .

Eduardo Luzia em 13 de abril de 1975, durante as 24 Horas do Brasil, em Interlagos, SP (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)
Eduardo Luzia em 13 de abril de 1975, durante as 24 Horas do Brasil, em Interlagos, SP (Foto: Adolpho Tedeschi Neto / Motostory)

ALGO MAIS

 Eduardo Luzia, além de extraordinário piloto é profundo conhecedor de Mecânica, um Manager, com estágios e cursos no Japão, na França e nos EUA. Tem, também, outras inegáveis qualidades de bonachão, generoso e companheiro a ponto de, numa corrida realizada em Curitiba no final dos anos 60, ao ver um dos competidores com o qual disputava posição se estatelar no chão, sem pestanejar, interrompeu sua prova e foi ao seu socorro, por solidariedade, e assim pôs fim a um grande resultado, mas de outra forma,  ganhou o respeito dos demais competidores.

PAPO BOM…

 Até hoje, sempre que possível, falamos de coisas novas, coisas velhas, mas sempre do  mesmo assunto, das mesmas emoções e de uma saudade de momentos e pessoas que, presentes ou que  já passaram, mas ao mesmo tempo tão latentes, que nossos olhos, não raras vezes, se lubrificam de algumas lágrimas caprichosas ainda presentes no  mais profundo cantinho de nossa alma.

O texto da nossa matéria não é inédito, mas de tão bom que é, pedimos ao autor para republicarmos. Foi publicado no Jornal de Araraquara em 16/06/2002 (Imagem: Reprodução / Benê (Benedito Salvador Carlos)
O texto da nossa matéria não é inédito, mas de tão bom que é, pedimos ao autor para republicarmos. Foi publicado antes no Jornal de Araraquara em 16/06/2002 (Imagem: Reprodução / Benê – Benedito Salvador Carlos)

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